Melhorar a qualidade da educação no Brasil parece ser uma questão de primeira ordem. Não é à toa que estudante de 13 anos, Isadora Faber, bombou nas redes sociais com uma página em que conta a realidade da sua escola. É um tema recorrente em cada lar, escola ou empresa. E tudo indica que precisaremos de um exército de ´Isadoras´ para tentar mudar a situação atual de descaso, abandono e falta de respeito com as gerações que aí estão se preparando para a vida e o trabalho.

A falta de qualidade do ensino no Brasil compromete a produtividade, a seleção e o desenvolvimento de talentos ou a carreira. A simples troca de experiência profissional entre países já é um desafio. André Sacconato, diretor de Pesquisa da Brasil Investimentos e Negócios (BRAiN) analisou dados de um relatório da consultoria que mostra a dificuldade nesse sentido. Os dados mostram que o Brasil tem menos de 0,1 estudante por mil habitantes saindo do País para fazer intercâmbio, número que cai para quase zero em se tratando de estudantes internacionais fazendo intercâmbio estudantil no Brasil. Além da falta de circulação de talentos não há também alinhamento com as necessidades do mercado. O relatório diz que o ensino brasileiro tem o quinto pior alinhamento com as necessidades do mercado entre 58 países de acordo com pesquisa com executivos realizada pelo IMD.
Parte do relatório da BRAiN, apresentada durante o evento Formação do Capital Humano – Inovação para a Competitividade, na Fecomercio-SP, alerta ainda para outras questões de deficiência qualitativa da educação no Brasil. E afirma: o País tem desempenho bastante deficiente nos ensinos fundamental e médio e, apesar de contar com algumas universidades de destaque na América Latina, tem a maioria de suas instituições de ensino classificadas em níveis medianos ou inferiores. Ou seja, ensino fundamental brasileiro teve o 12º pior desempenho médio na prova internacional PISA de 2009, apesar de ter apresentado a terceira maior melhoria entre os 65 países pesquisados desde 2006.
Some-se a isso, o fato de que apenas cinco universidades brasileiras figuram entre as 600 melhores no mundo. Sacconato ressaltou, ainda, sobre a falsa necessidade de formandos em nível superior. Ele diz que é necessário ter maior valorização do ensino técnico, a exemplo do que faz o Chile. “Temos uma cultura equivocada do bacharelismo”, assegurou.
Como uma formação leva cinco anos para se complementar, ele diz que é urgente rever esses pontos. Verificar que tipo de mão de obra o Pais realmente está carente para fazer o intercâmbio. Para Sacconato é preciso tomar cuidado também com a formação das crianças de zero a três anos, fase em que desenvolvem toda a capacidade cognitiva.
Indignação necessária
O presidente do Centro de Liderança Pública, Luiz Felipe D´Avila não poupou os presentes de sua indignação com os dados que revelam todo o cenário decadente da educação no País. Para ele é preciso antes de tudo essa dose de indignação e uma profunda transformação cultural no entendimento do tema. Ele diz que para melhorar a qualidade da educação é preciso seguir os pressupostos da inovação. “Transformar tudo em um bem material”, observou. Ele defendeu ainda instituições mais fortes, que promovam a confiança nas transformações que serão necessárias. “Assim será possível discutir os valores sociais e também correr mais riscos em determinadas iniciativas”, afirmou. A grande questão a ser respondida segundo ele diz quase tudo, ou seja, é preciso saber qual o propósito de se construir uma melhor escola. E isso deve direcionar todas as decisões a seguir. Ou seja, não se trata de entregar mais escolas para a população em geral, especialmente em épocas de eleições, mas de melhorar de fato a qualidade da educação. D´Avila costuma chamar de ilusões alguns fatores que não contribuem para essa melhora. Entre eles a dependência do país de uma poupança externa, os gastos do governo em relação ao PIB e os números da previdência social que nunca fecham. “Os gastos sociais consomem 24% do PIB, mas apenas 2% desses vão para a parcela mais pobre da população”, argumentou. Por conta disso talvez, 50% dos jovens não concluem o ensino médio no Brasil. E isso se reflete também nas cadeiras vazias nas universidades.
O resultado, segundo D´Avila, é uma questão estratégica do País e onde ele quer chegar. Afinal, enquanto o brasileiro em função da sua baixa escolaridade produz 7 dólares por hora trabalhada, o chileno produz 14 dólares e o americano 37 dólares. Não é difícil imaginar o saldo disso nas proporções continentais do país e exponenciais da economia.
Segundo ele o fato é que o setor da educação não permite a inovação. Todos os palestrantes foram unânimes em afirmar ainda que a outra ponta a ser corrigida é a da valorização da carreira do professor.
O presidente do Conselho de Criatividade e Inovação da Fecomercio-SP, Adolfo Melito, coordenou a mesa de debates sobre o tema que contou ainda com a participação do líder de redes sociais e colaboração para a América Latina da IBM, Flávio Mendes, que contou sobre as ferramentas on-line da empresa em nível mundial para troca de conhecimento informal e formação clássica voltada para o desenvolvimento de carreira. Outro participante do evento, Luiz Edmundo Rosa, diretor de Educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) salientou a queda do Brasil em onze posições no ranking do IDH (desenvolvimento humano) em apenas um ano e a queda -1% por ano de presença no ensino médio, mesmo com o crescimento da população em geral. Assim, sobram cadeiras também no ensino superior, com 50% das vagas que ficam sem preencher. Para ele a grande incógnita é como sustentar o crescimento do Brasil a partir desses indicadores?
Edmundo disse que os pais deveriam deixar de ser motoristas dos filhos e adentrar a escola para saber mais sobre a qualidade de educação que está sendo entregue. Segundo ele é possível ter escolas maravilhosas se todos participarem da gestão dos processos. Ele diz que o problema da educação em geral vai ser um desafio para a gestão das empresas. “Salário não tem elasticidade suficiente para reter talentos”, assegurou. “Por isso é importante investir e cuidar das lideranças transformadoras”
A professora doutora do Centro Universitário Senac, Claudia Coelho Hardagh, também não titubeou em afirmar que em poucos anos não haverão mais professores dispostos a trabalhar em salas de aulas. A carreira é hoje vista com desinteresse e até com um certo grau de vergonha, ou entendida como resultado de fracasso profissional. Dos que se aventuram na carreira, poucos são os professores que hoje investem em pesquisa e na própria educação, garantiu ela. Para Claudia é urgente que se retome entre os orgulhos da sociedade, a valorização e o respeito pela carreira de professor. Ela também alertou para os problemas de ajuste das novas tecnologias e a transmissão do conhecimento. “Há absurdos sendo feito no ensino a distância”, afirmou. “O resultado disso, veremos em alguns anos”. Ou seja, está mais do que na hora de usarmos todos os recursos, as redes sociais, os jovens, os políticos, os especialistas, os pais de alunos, os profissionais de treinamento e desenvolvimento para virar esse jogo.
Marisa Torres