Se as pessoas aderissem ao vegetarianismo, os impactos seriam positivos em três aspectos: saúde, prevenção ambiental e respeito aos animais, defende Marly Winckler

Além dos benefícios que o vegetarianismo pode trazer à saúde, como a prevenção de doenças crônicas, esta prática alimentar é vista como uma alternativa para amenizar os problemas ambientais do século XXI. Marly Winckler atribui à produção de carne a causa de um dos maiores problemas ambientais. “A indústria da carne é a principal responsável pelo uso e contaminação da água. 20% da Floresta Amazônica já foi destruída e os principais fatores responsáveis por essa destruição é a criação de gado e a plantação de soja”. Para Marly, “ao nos alimentarmos com carne, estamos contribuindo com uma enorme violência”.

Marly está na Índia e, na entrevista que aceitou conceder à IHU On-Line por e-mail, conta que o vegetarianismo é a prática dominante entre os indianos, embora perceba que eles estão “começando a seguir a cultura ocidental e isso inclui o consumo de carne, mas, ao mesmo tempo, surgem movimentos contrários de valorização do vegetarianismo”.

Marly Winckler é a tradutora para o português do livro Animal liberation (New York: Harper Collins, 2002) – Libertação animal (Porto Alegre: Lugano, 2004), do filósofo Peter Singer. Além de socióloga e tradutora, Winckler é vegetariana desde 1982. Ela criou um sítio vegetariano, o SítioVeg (www.vegetarianismo.com.br), e modera as listas de discussão sobre vegetarianismo “veg-brasil” e “veg-latina”. É coordenadora para a América Latina e o Caribe da International Vegetarian Union – IVU (www.ivu.org/latin-america.html), com sede na Inglaterra. Preside a Sociedade Vegetariana Brasileira – SVB (www.svb.org.br) e é autora dos livros Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre (Florianópolis: Ed. Rio Quinze, 1992) e Fundamentos do Vegetarianismo (Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Onde e em que momento histórico nasce o movimento vegano e vegetariano?

Marly Winckler – Há milênios, algumas pessoas não se alimentam de carne, mas o nome vegetariano surgiu em 1847, na Inglaterra. Nessa ocasião, foi criada a Sociedade Vegetariana que existe até hoje. A Sociedade Vegana foi formada também na Inglaterra, em 1944.

IHU On-Line – Por que não deveríamos comer produtos de origem animal?

Marly Winckler – No que diz respeito à saúde, os vegetarianos tem índice 50% menor de diabetes, 31% menor de cardiopatias, e menos tendência a ter cânceres (sendo índice do câncer de próstata 54% menor e o do de intestino grosso, 88% menor). Se esses dados fossem considerados, seria possível mudar o quadro de saúde no país.

Meio Ambiente

Vivemos graves problemas ambientais atualmente. A indústria da carne é a principal responsável pelo uso e contaminação da água. 20% da Floresta Amazônica já foi destruída e os principais fatores responsáveis por essa destruição é a criação de gado e a plantação de soja. O brasileiro não consome soja – a não ser uma pequena parcela para a produção de óleo, ou seja, essa soja é exportada para alimentar animais em outros países.

A Floresta Amazônica detém cerca de 25% de todas as espécies animais e vegetais do planeta. Estamos perdendo nossa extraordinária biodiversidade sem ao menos conhecê-la. O grave problema do aquecimento global também está ligado à criação de gado. 18% das emissões de gases de efeito estufa vem do gado e apenas 13% de todos os transportes somados, segundo a ONU. No Brasil, ao contrário de outros países, não são as cidades as principais emissoras de gases de efeito estufa. São Paulo e Rio emitem relativamente pouco, cerca de 1,5 de CO2 per capita por ano em São Paulo e aproximadamente 2% no Rio de Janeiro, quando a média brasileira é de 8,2% – colocando o Brasil entre os dez principais emissores. De onde vêm esses gases? Das queimadas da floresta e da enorme quantidade de bovinos criada no Brasil – que superam o número de pessoas. Na Amazônia há quatro vezes mais bovinos que pessoas.

Animais

Nunca os animais foram tratados de forma tão desrespeitosa, como um objeto na linha de produção – gerando enorme sofrimento. Se queremos paz, não devemos semear violência e, ao nos alimentarmos com carne, estamos contribuindo com uma enorme violência.

IHU On-Line – A senhora mencionou que está na Índia. A cultura vegana e vegetariana é mais aceita no Oriente do que no Ocidente? Que aspectos fazem com que o vegetarianismo seja mais difundido em uma determinada cultura do que em outra?

Marly Winckler – Estou na Índia e aqui ainda é possível um vegetariano fazer parte da maioria em alguns estados, como em Gujarat. Infelizmente, os indianos estão a passos largos começando a seguir a cultura ocidental e isso inclui o consumo de carne. Ao mesmo tempo, porém, surgem movimentos contrários de valorização do vegetarianismo. O que fez a Índia se tornar um país majoritariamente vegetariano foram as religiões locais, as quais pregam o vegetarianismo. Houve uma época, no tempo do rei Ashoka, em que 100% dos indianos era de vegetarianos.

IHU On-Line – Quais os desafios de uma alimentação ética, considerando que parte da população mundial ainda vive na miséria e passa fome?

Marly Winckler – Tudo está ligado e, por não termos, principalmente no ocidente, uma alimentação ética, entre outros fatores, temos tanta pobreza, doenças, fome, violência. Quando acordarmos para isso como humanidade e tivermos líderes esclarecidos e com força política para reverter essa situação, privilegiando a alimentação ética, saudável e sustentável, representada apenas pelo vegetarianismo, podemos ter esperança de um mundo melhor, sem a enorme violência em que vivemos mergulhados no momento.

Por: Patrícia Fachin

Por: ihuonline